quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Canção de ninar

♪"...Sabiá responde de lá / Não chores que eu vou voltar"♫

Shhhhhhhhhhhhh!

Ele está dormindo.

domingo, 4 de novembro de 2007

Com fiança

É sempre muito difícil falar de um grande amor. E, como todo grande amor, não tem razão de ser, é patético e, por vezes, dá vergonha de assumir.

De fato, me apaixonei. Lembro-me do primeiro dia em que o vi. Sinestesia. Vi meu mundo explodir de tanta cor, tanto sentimento, tanta alegria! Eu estava nervosa também. Era meu primeiro contato com ele eu estava sozinha. Estava lá por motivos quase profissionais, e eu levei aquilo muito a sério. Sério até demais. Mas a paixão foi inevitável.
E eu que me considerava tão racional, me vi tomada por aquela mistura de sentimentos. Estar naquela situação fazia com que eu me sentisse mais infantil e, quanto mais eu abafava aquele sentimento, mais ele crescia. Era ridículo e era bom.
Voltei para casa como quem volta da balada com a roupa e cabelo impregnados de cigarro. Mas, daquela vez, estava carregada do cheiro dele, da imagem dele, do doce som dele. A insegurança e a mistura de sentimentos me invadiam.
Enxerguei nele, um mar de dedicação, humildade e beleza. Beleza tanta que não cabia. Cheguei a pensar que, se ele era tão belo, quão bela não seria a Beleza em sua fonte. Cheguei a abafar outros amores, desprender-me de outras paixões. Encontrei outras pessoas que também comungavam do mesmo sentimento que o meu. E, como uma apaixonada cega, não conseguia entender aqueles que não sentiam o mesmo que eu sentia.
Frenesi.
Mas não deixei a equação matemática de lado. Ela faz parte, ela regula os sentimentos, trilha os caminhos. Fui honesta com meus princípios profissionais e mantive a seriedade. Eu e minhas companheiras, tão enamoradas quanto eu.

Infelizmente, aos poucos, aquele encantamento foi se esvaindo. Eu já desconfiava. Quando se vê qualidades demais, deve-se estar preparado para a decepção. Depois da ascensão, a queda. E eu sabia que o tombo seria forte. Por que a admiração era tanta, mais tanta, que o desapontamento só poderia ser inversamente proporcional.

Foi tristeza, vazio, decepção. Um buraco no peito. Até raiva. O que eu via, não era generosidade, era egoísmo. Não era humildade, era arrogância. Não era diálogo, era autoritarismo. Não era simplicidade, era vaidade.

Mas continuei aquela peregrinação por obrigação e por pena de perder, de repente, um sentimento tão bonito. Quando me dei conta, a paixão já tinha virado amor. Daí não tinha mais jeito. Engoli a desilusão, dobrei bem dobradinho o desengano e o guardei no bolso.

De vez em quando, ainda sinto indigestão e ponho a mão no bolso, ameaço a desdobrá-lo. A última vez que o fiz, foi quando quis colocar meu rebento na escola da vida. Contudo, sem o sobrenome do pai não consegui matriculá-lo. Outrora, se essa cria fosse útil para alimentar a glória dele, ela estaria agora dormindo em berço de ouro.

Não faz muito tempo, meu amor ficou manco. O que era unidade, virou fração. A dor foi grande, mas tirou-se disso um bem. Ele ganhou múltiplas faces que, antes coadjuvantes, agora aparecem mais e estão mais coloridas assim. Porém, meu amor não se dividiu. Multiplicou-se. Agora, a parte que se "manteve" pode pensar que quero destruí-lo. Que todos nós, enamorados, o queremos. Ledo engano. O que queremos - ou queríamos - era voltar a sorrir com ele de novo.

É bem verdade que, no momento, já não se quer mais nada. Quase não se sofre mais. É melhor assim, ficar com boas lembranças e pegar só o bem que ele nos fez. E quanto bem fez! Quantas alegrias e quantos bons frutos!

É assim que quero permanecer, grata por tê-lo conhecido. É assim que quero ficar, não apenas com boas recordações, mas gozar dos presentes que esse amor me deu.


É, o amor tem seu preço. Eu já paguei o meu. É por isso que me distancio e o vejo com olhos críticos. Isso por hora. Quanto ao futuro, espero simplesmente. Bem lá no fundo da esperança, típico de quem ama. E como um mantra, repito as palavras do poeta: não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


(imagem Adriana Ooki)