segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Um sonho bom

Cheguei menina naquela noite nem fria, nem quente.

Mas nem por isso menos noite.

Ao contrário: seu preto era o mais preto, suas estrelas todas.
Nenhuma nuvem, mas várias estrelas cadentes. Tantas tantas que parecia que o céu estava em festa.
Tantas tantas que não sabia qual pedido pedir.
Tantas tantas que o preto da noite se confundia com toda aquela luz.

E havia, ainda, aquela maior e mais bonita, que tanto iluminava, apagando toda treva.
A lua era cheia - eu nunca a tinha visto tão grande.

Cheguei menina, meu manto perfumado.
Mamãe o tinha lavado e passado.
Tão macio o meu manto!
Era o mais bonito que eu já havia ganhado!
O perfume da minha roupa se confundia com o perfume das damas da noite, desta vez, com um cheiro bem suave e nunca enjoativo.

Cheguei triste, ombros cansados.
Ele sorriu para mim, com seu manto marrom e colocou as mãos sobre meus ombros. Segurou firme, e meus músculos relaxaram.
Que sorriso bonito, e quanta paz ele me passou!

Minha garganta ardia
há dias!
O som dos cantos me deu um pouco de sono.
Eu bocejei, e dor se amenizou.

Cheguei menina, eu e meus amigos.
Os idosos, as mulheres, os negros, os robustos.
Havia algumas ovelhas que os acompanhavam ... eram tão peludas! Aqueles novelos de lã ambulantes...
Duas pastorinhas seguravam as minhas primeiras bonecas: Mariana e Meméia.
Eu não queria dar a Meméia, mas fiquei feliz de saber que aquela criança a amava tanto quanto eu.

Cheguei menina e dei um espirro. Ainda bem que foi só um.
Ele olhou para mim com seu sorriso e me disse:
- Não quer conhecer a nossa família?

Que bonito ele era! Deu-me vontade de chorar.
Ele parou na frente da gruta. E, desta vez, foi ele quem se emocionou.
- É bonita a sua família? – perguntei.
- Cada vez mais.
Eu falei do sorriso, mas deveria ter falado dos olhos. Apaixonados. Amor entregue, descabido, sem medidas.

Cheguei menina, e o cheiro do celeiro era forte. Lembrei do sítio e pensei: "Meu pai e meu irmão iriam gostar daqui".
Distraída, esqueci de ver de onde vinha aquele coral. Eu gosto de ouvir corais, mas acabei esquecendo daquele belo som. Pudera, cada coisa, cada simples coisa me era uma surpresa.
Estava muito claro lá. Luz que cegaria, se não tranqüilizasse. Tranqüilidade singular e sem fim.

Enfim, ele me apresentou ela. Ah! Como era bonita! Generosa, me deu seu bebê pra eu segurá-lo, sem que eu pedisse, sem que eu merecesse.

(Eu gosto das crianças e elas gostam de mim)

- Oi, bebê!

Ele me sorriu. Desbancou o sorriso do pai, sem um único dente. Tão pequenininho e já sorria tão bem! Gostei desta criança, muito simpática!
E como era bom abraçá-lo junto ao peito, tão quentinho!
Já nem sentia mais o cheiro de esterco e nem achava estranho a cara da vaca apoiada em meu ombro. A vaca queria lamber o bebê, mas eu a afugentava. Vai sujar a criança!
No fim, quem levou a lambida fui eu.
Todos deram uma grande gargalhada. Era tão gostosa, que nem fiquei brava e comecei a rir também. Parecia que até a vaquinha ria.

Cheguei menina, e o bebê mexia as mãozinhas, queria segurar o meu cabelo, mas era tão novinho, que não tinha força.
- Nasceu faz dez minutos – disse
Aquele olhar profundo e bem resolvido. Aquele sorriso simples e livre. Aquelas mãos bem desenhadas.
Ele pegou a criança no colo e eu pude beijar as mãos da mulher.
Dei um beijinho na testa da criança e lhe contei o meu segredo. E ela me contou o Seu.

Ceguei menina, e a noite fez silêncio.
Fui embora feliz e com a certeza do que tinha vivido: meu rosto ainda estava molhado da saliva bovina.