quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Eu vejo a vida melhor no futuro

Querido diário,

Depois de exato um ano e nove meses, o vocativo tomado pela ironia acaba aqui. Não vou mais te chamar assim. Ou melhor, não irei mais chamá-lo. É certo que existe o arrependimento, eu posso vir a mudar de idéia, mas por ora, acabou. Não, não é gracinha do tipo "hei, o Super-homem morreu!", não, não. Mesmo porque não é para tanto. Não é para tanto mesmo.

Vou continuar usando esse espaço (aliás, pretendo atualizá-lo com mais freqüência). Mas, alguns motes repetidos aqui chegam ao seu fim. E esse é o fim do diário da menina rosa e dos beijinhos azuis.

O filho (de dois anos e vinte seis dias) é soluço pedrinha e tornou-se pérola do trabalho bem feito. Está bem lá, onde é devido o seu lugar. Ah! Há ainda tanto mar para se desbravar!

Falando em mar, encontrei meu porto - feliz porto -, e é em sua homenagem paro com você. Depois de amarguras e armaduras, vem o amadurecimento. E o meu não é nem amargo, nem azedo, mas doce, denso e suave. Derrete na boca até não poder mais!

Mas você não vai ficar sem nenhuma lembrança minha, não se preocupe. Te dou minha mamadeira, meu berço e minha chupeta. E já pode ir preparando o riso: vou esquecer do copo e virá-lo tal qual mamadeira. Vou me lambuzar de leite todinha, mas é isso que eu quero. O copo é meu, e a mamadeira é sua. Trato feito.

Ah! Agora, eu tenho mãos que abraçam para me confortar. Sei que fica feliz em saber disso, mal podemos esperar a hora!

E a hora é agora. Vou-me antes que chegue o já vai tarde.

Beijos, simples beijos,

Cris

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Morro no silêncio

Certa vez, ela sentiu arrepio. Não que não o tivesse sentido antes, nem que não o sentiria muitas vezes depois. Mas aquele era diferente. Mãos canalhas em suas costas nuas. O frescor da brisa em seus cabelos provocado pelo movimento do carro dava a ela tão boa leveza, que ela quis prometer ao vento nunca mais se esquecer daquela sensação. Ela era sua e, dela, não poderia ser tirada.

Talvez dois anos mais tarde, subiu no morro do silêncio. Sentiu as pancadas da verdade. Sentiu a ardência do amor sem nenhuma colherinha de açúcar. Sentiu medo. Era vertigem.

Passou-se mais um ano, e aquelas mãos canalhas da brisa noturna secaram como folhas de outono. Ela se lembrou da vertigem de seu amor, que nada tinha a ver com aquele arrepio em chamas. Era o fogo do silêncio – puro diálogo – que desvelou as mãos secas de fétido enxofre. Sem querer mais, a lembrança ficara – não se pode trair o vento – mas apenas para não se esquecer da vertigem.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Gosto é gosto né...

Vamos lá, momento desabafo...

Estava falando com um amigo sobre o padrão de beleza masculino e caímos no assunto Justin Timberlake como modelo atual para tal. E eu digo: E-C-A!

Todo efeminado. Credo. E, nem vem...não é preconceito. É conceito, o meu gosto, ok? Você tem o seu, se acha o Justin bonitão, só lamento.

Para mim, homem tem de ser homem, com cara e jeito de homem. Sem firulas.

Em suma, as imagens dizem por si só.

Homem duvidoso:


Homem homem:



Tá, ele não precisa usar roupinhas medievais, nem ter barro na cara, mas serve como um bom contraste para o moçoilo pop star.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Glup!

Tem soluço que é molinho

E a gente manda para fora

De lágrima em lágrima, ele vai embora

Tem soluço que é letrinha

E a gente resolve

De palavra em palavra, ele se dissolve

Tem soluço que é pedrinha

E a gente implica

De gole em gole, ele petrifica

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Entre vós

"Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura"

Eu prefiro os loucos. Não você que se acha diferente e quer contestar todas as regras da sociedade. Não você engraçadinho. Não você de piercing na veia, horta no cabelo e amante de um tiranossauro rex. Não você que acha tudo normal.

Eu estou falando do louco louco mesmo, lelé. Pinel. Tantã da cachola. Esse que se mexe sem parar em movimentos desconexos. Esse que anda pela rua, gritando que é Napoleão. Esse que cheira pinga de arder o nariz. Esse perturbado em camisa de força. Esse que grita palavrões no trem. Esse que assusta.

Esse aí que incomoda.

Eu prefiro os loucos. Que mostram um pouquinho, por contraste, que alguma coisa está fora da órbita mundial. Que nos revela a inconstância e o desequilíbrio dos nossos atos. Que evidencia a nossa insignificância. Que pesa na nossa ressaca mental. Que denuncia a nossa falsa liberdade. Que insulta-nos com a verdade sobre nós. Que faz termos medo de nós mesmos.

Que revela a insanidade que acomoda.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A José do Patrocínio

Sabe, meu velho, não faz muito tempo, conheci um menino. Bem pequenino. De cabelos no vento e cachecol. Bem onde estava, olhava para o chão e via o céu. Ficava silencioso, e não se sabia se estavam o agradando ou não.



Dali a pouco, colhia pedras de diamantes. Via milhares, mas pegava no máximo três - só assim elas brilhavam mais. Pegava-as como quem pega bolinhas de gude. E, calmamente, colocava-as em minhas mãos, uma a uma, sem pressa. Sorria-me sutilmente. Olhava-me profundamente. E seguia leve nas poeiras do vento.



Desde então, ele prossegue seu gesto, repetidas vezes, trazendo pedras novas.



Quando ele demora, sinto a falta desse menino – não são raras às vezes. E toda vez que choro seu silêncio, olho para o céu e vejo-o pisando sobre as estrelas, caçando-as para mim. E aceno reluzente para ele a sua espera.


Marina Faria

sábado, 18 de outubro de 2008

Epístola

Caro Ari,

Escrevo-lhe para dizer o quão sofrível é a vida de um idealista. Não é fácil de certo. Nós imaginamos um mundo e pomos nele a verdade. A Verdade. Nós acreditamos num amor que jamais saberemos viver. Ah, quem me dera amar do tamanho dos meus desejos!

Nós lemos livros inteiros que, de fato, não passamos da página vinte. Nós vasculhamos o inconsciente e ficamos à mercê das garras da neurose.

Vale dizer, por justiça, que nosso sorriso é mais farto ao olhar para uma estrela e que nosso choro é mais penitente ao se deparar com uma ferida aberta. É verdade que nossos doces têm mais sabor, que nossas palavras confortam mais e nossas buscas são mais motivadoras.

Mas também é certo dizer que o medo nos assola, que nossa autoconfiança se esconde no quartinho escuro de casa e que nossos anseios vivem com delírios febris. Dia e noite, noite e dia. Quem me dera ser como você Ari. Vai e faz. Que não pensa, age. Que não reclama, espanca a dor. Que não ri, goza do sabor.

É claro que gente como eu não existe. E é claro que você também deve ter a suas dores. Daqueles que confundem suas palavras, com suas inconsistências, suas frivolidades, suas mediocridades. Ah! Deus me livre os medíocres!

Fosse eu homem e você mulher poderíamos ter um filho. E desse fruto uma realidade com sabor e cor daqueles que conseguem por seus ideais em prática. Daqueles que lêem até a última página.

Daqueles que devoram o conhecimento e vomitam atos de afetos. Deixe-me aprender um pouco contigo. E esse aprendizado já será uma troca.

Saudades, meu velho.

Seu amigo,

Plá.

domingo, 12 de outubro de 2008

Digital life is over

Acabo de fazer uma ligação...E...hum...Se eu tivesse um Twitter (não, eu não pretendo fazer, minha cota de perdadetempismo na Internet já estourou), neste momento, eu colocaria a seguinte frase:

"Se você for fazer coisinhas com seu parceiro(a), por favor, desligue o celular"

Evitaria constrangimento de ambas as partes, não acha?

Grata,

C.C.

Hunf.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Talagadas

E olhava para o lodo e se enojava.

E olhava para o feno fofo e se entediava.

E olhava para as águas cristalinas e se assustava. ( Deve arder).

Então, olhou para o sangue. Escuro, espesso, denso e incrivelmente perfumado.
E bebeu, bebeu de talagadas, até lavar, saciar, explodir de amor.

domingo, 7 de setembro de 2008

Tragicomédia em 3 (des)atos

Primeiro "Ato"

Cena Única


Esta é a Maria.









Coro


Oooooooi, Maria!

Segundo "Ato"

Cena Única


Este é o Banho.











Coro

Ooooooooooooi, Banho!

Terceiro Ato


Cena I


Um dia, Maria resolveu se encontrar com o Banho. E da farra deles, nasceu o Banho-Maria.











[O Coro não cumprimenta]


Cena II


Daí, a Maria se enamorou pelo Corte.














[Cai o pano]

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Pára tudo.

Desta vez, escolhi roubar uma pauta do Fantástico.
(Sim, ontem eu assisti Fantástico. Todos temos nossas máculas.)

A matéria falava sobre a queda do número de filhos por família. Agora, a média é de menos de dois filhos para cada casal, o que pode resultar em uma significativa maioria de famílias sem filhos no futuro.

A personagem que mais me chamou atenção na reportagem foi uma mulher, de 32 anos, que pagou o mico nacional de falar que não tinha filhos por não ter tempo de ter relações sexuais com o marido. (EXCLAMAÇÃO!!!) E que precisa fazer inseminação artificial para ter, digo, fabricar bebês. Para isso ela tem tempo.

Agora, eu digo: como assim? Para que uma mulher trabalha tanto que não tem tempo de ficar com o próprio marido? Para que ganha tanto dinheiro se vive para o trabalho?
Esses questionamentos valem, igualmente, para os homens. Antes que venham aqueles papinhos queima-sutiãs de sempre.

Não quero discutir aqui se você deve ou não ter filhos. O que me indigna é que, hoje em dia, as pessoas se preocupam tanto com suas carreiras, que não tem olhos para a vida como um todo. A paranóia é tanta que, daqui a pouco, vão dizer por aí que dormir, comer e ir ao banheiro é supérfluo. Quer dizer, daqui a pouco nada. Tem muito espertalhão por aí levantando essa bandeira como se fosse um grande trunfo. Que comprem um pinico como troféu.

Nesse furdunço todo, perde-se o essencial, e passa-se a viver num show de talentos alucinógeno, por puro medo de poder parar e ouvir seus próprios pensamentos. É, pensar incomoda.

Agora, cá pra nós, chega mais perto, vou lhe contar um segredinho:

Eles são malucos, todos eles, nos altos dos tribunais, por trás das câmeras e em suas cadeiras de presidente. E querem te fazer de louco por pensar diferente. Shhhhhhhhhhh!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Da amizade

Até quando se deve lutar por manter um amigo?

A resposta deve ser até sempre. Mas o ceticismo e a decepção estão batendo à porta, pedindo um prato e cama para dormir.

A fechadura está quebrada, que chamem alguém para consertá-la urgentemente!

Pois há travesseiros a mais e comida sobrando.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Ovo ou a galinha?

Quem surgiu primeiro?


O Calvin ou o gatinho do Shrek?


Só porque tava demorando para o Calvininho passar por aqui de novo.

Em tempo: nem curto tanto esse gato aí!

Polemic mode on.rs

domingo, 27 de julho de 2008

Quinta-feira, 18 de outubro

Anda muito levada, teimosinha, mas é próprio da idade. Tudo quer ver, pegar, palpar, explorar. Faz gracinhas, tira os calçados dos pés, abre as torneiras, molha-se toda e mil e uma travessuras. É chegadinha em lápis e canetas (mais em canetas). Rabisca o que encontra pela frente. Certo dia, rabiscou tanto seu próprio corpinho e, com a carinha mais inocente desse mundo, me disse "Queví manhê, tá unito, tá?". Aprendeu a palavra cada uma, lá na escola, e a emprega vez por outra. Entrega um objeto para mim, para o Filipe e acrescenta a palavra nova. Filipe se põe a admirá-la e dá umas gargalhadas com ela. Ensina uma e outras para a irmãzinha, como por exemplo: "Imita um elefante, Cris!". E ela responde com um grito que aprendeu com ele. Isso fazem exatamente nas horas críticas, quando coloco o jantar na mesa, quando já foram pra cama e até dentro da igreja fazem certas tentativas...Só eu sei, são uns amores, gracinhas da mamãe!
A menina cresceu e continuou teimosa. Uma teimosia menos graciosa que a faz sofrer e sofrer. Vez ou outra, ela olha para a luz e se lembra que certas teimosias valem a pena, e ela, então, volta a sorrir.
A menina chegadinha em lápis e caneta fez desses brinquedos seu trabalho. Ela treme nas bases só de pensar no peso daqueles brinquedos. Apaixonada pelas letras e pelas palavras, tece uma folha branca de papel como quem tinge de sangue o peito de um infante.
A menina, cheia de nostalgia, acha que já não aprende mais com seu irmão mais velho. Talvez, daqui alguns anos, ela descubra que ainda aprendia sem perceber.
Sente vontade de chamá-lo e perguntar: Como é o grito do elefante mesmo?
Mas ela teme que ele tenha esquecido ou que receba como resposta um sorriso amarelo.
Prefere não correr o risco e imaginar que o elefante ainda está lá, dentro deles dois, numa fusão. Todo sujo de canetas, embaixo da torneira, tentando se lavar.

E com a carinha mais inocente desse mundo.

domingo, 20 de julho de 2008

Arte, fato

Eu pelo de medo toda vez que escrevo uma matéria envolvendo economia. Não que política ou cultura não sejam também assuntos delicados. São sim, até mais, dependendo do caso. Mas, economia me dá mais receio ainda. Talvez por ser um assunto, muitas vezes, instável, cheio de jargões e especulações. Acho fascinante algumas vezes, complicado em outras e manipulador em quase todas. Eu temo estar sendo enganada, me enganando e enganando o pobre leitor.


Quando escrevo uma reportagem que envolve muitos dados e muito dinheiro, lembro das vezes em que li matérias sobre religião. Assunto esse que considero de maior importância, embora esteja fora de moda. Não manja do assunto? Então não escreve! É incrível como tem jornalista (não só jornalista) metido a besta querendo dizer que sabe o que não sabe. E é na cara dura! É com juízo de valor mesmo, com uma carga de subjetividade sem tamanho que nem um artigo mais panfletário suportaria.E, então, me pego cheia de escrúpulos, tentando evitar erros crassos, sem perder a credibilidade e o texto envolvente.


Há um ano e meio, fiz meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, um vídeo que envolvia uma série de artistas, e, em uma das entrevistas, uma cantora começou a enumerar a arte em seus variados gêneros: "No teatro, na música, no circo, no cinema, no jornalismo...". Haha! No jornalismo? Ela quis agradar a gente, né? Edita isso aí. E foi, assim, que a fala parou no cinema mesmo.


Não me arrependo de ter editado a frase dela. Ia ser um pouco ridículo mesmo. Mas, pensando bem, às vezes, o jornalista tem de ser um pouco artista sim. Bem ou mal, de forma quadradinha ou não, lidamos com texto. E escrever texto é sempre uma arte. O duro é lidar com arte e com precisão dos fatos ao mesmo tempo. Haja malabarismo.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O brinquedinho da menina

Ela era pequenina e branquinha. Cabelos loiros e ondulados, a tez delicada, o nariz meigo e o sorriso brando. Suas mãozinhas pareciam leques de algodão. Seus olhos azuis, tão azulzinhos, iam de encontro ao mar, batiam na onda fria do horizonte e refletiam a vaidade gélida das almas humanas.

De fala mansa e gestos ternos, seduzia a todos. Era quietinha, porém graciosa. Dançava, tocava, cantava e encantava. Todos se admiravam com tanta beleza em um corpinho tão pequenino. Tantos encantos sutis. Tanta poesia discreta.

A menina, mimada que era, tinha muitos brinquedinhos. Um deles era o seu preferido. Um ursinho sem cor e simplório. Ela levava o ursinho para todos os lugares. Dançava com ele, lia-lhe historietas, cantava para ele. Junto ao seu peito, o ursinho se encaixava muito bem.

O ursinho sem nome era seu melhor amigo. Riam muito, comiam geléia de damasco, procuravam ameixas no pudim, caçavam borboletas brancas para fazer um pedido. O ursinho sem voz dava conselhos à menina. Mostrava que seu vestidinho de organza e cetim estava manchado. Ajudava a menina nos deveres escolares.

Vez ou outra, ela olhava para o seu vestidinho manchado e tinha raiva. Olhava para o laço xadrez do ursinho e o picotava em mil pedaços. Cortava a ponta de suas orelhas! Arrancava-lhe o nariz! Mas, sim, ela o amava! Como amava seu ursinho!

Um dia, a menina resolveu afiar sua tesourinha nas pernas do seu ursinho. O ursinho amava sua amiguinha. Mas amava mais as suas pernas. Porque, sem elas, não poderia fugir para proteger seu coração.

O ursinho pegou suas coisas e foi brincar na casa do Joãozinho. E por lá ficou.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

...ululante que pulula nas mentes humanas

Estava eu fazendo um trabalho para a licenciatura e, eis que senão quando (adoro essa expressão), deparo-me com esse trecho:

“A partir do intercâmbio virtual entre esses educadores da Antigüidade e os de hoje, além da necessidade de ambos em dialogar com inquietude e com as alternativas possíveis, nos prova, a todo momento, algo extremamente óbvio. Óbvio, pelo menos para quem ainda se dispõe a olhar para o céu quando sai pela manhã e diz “bom dia” ao transeunte e ao jardineiro: é necessário sensibilidade”.
Cara, casei.
Hei, você! Tenha um bom dia=)

domingo, 29 de junho de 2008

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Você-sabe-quem?

- Sabe, eu acho que eu sou uma alma muito especial mesmo. O diabo não pára de me tentar.
O cura olhou para o menino de bochechas vermelhas e pés descalços de cima para baixo e replicou:
- Você não é importante assim. No máximo, você deve estar sendo amolado por um demoniozinho de última patente.
- Como ele é?
- Como vou saber? Deve ser careca, corcunda e zarolho.
- Tão óbvio assim?
-Última patente. Satanás seria agradável aos olhos, sedutor aos ouvidos, macio no tato.
- Sabe o que eu acho? Que tudo isso é lorota. Esse negócio de diabo não existe.
-Dizem que é o ele quer.
-O quê?
-Que acreditem que ele não exista. Assim, atua com mais facilidade.
-E se for o contrário? Que querem que acreditemos na sua existência, pelo simples fato de não podermos crer na sua inexistência?
- Como pai da mentira ele está fazendo um bom trabalho. Acho que o subestimei, o seu diabinho deve estar na penúltima posição na hierarquia dos anjos caídos.
- Hum...Esse tem cabelo pelo menos?
- É melhor do que eu pensava...Talvez antepenúltima posição, vai.
- Quer saber? Não tenho tempo para isso, preciso terminar meus afazeres – respondeu o menino, saindo sem se despedir.
- Não, não, penúltimo posto, e não se fala mais nisso – disse o cura, voltando a ler seu breviário.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Da série...

"Curtindo a vida adoidado"? Não... "Levando a vida a sério"*.

Esse aí levava a vida tão tão a sério que "criou" mais três pessoas. Sério.

Acesse aqui e révi fan.

*Vale dizer que as “séries” não são excludentes.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

12/06

A jornalista Carla C. me mandou esse e-mail sem querer:

Caros assessores de imprensa,

Parem de me mandar press releases sobre o dia dos namorados. Não vou dar nem uma nota.

Grata,

C. C.

Curta e grossa a Carlinha, não?


domingo, 25 de maio de 2008

Abbà

Attende, domine, et miserere, quia peccavimus tibi.
Que posso fazer, meu amor?
Esses olhos tão tristes
Que posso fazer, por favor?

A palavra afasta
Os afagos repelem
A prece escasseia

Que posso fazer, meu amor?
Esse corpo tão dolorido
Que posso fazer, por favor?

Não deixe a rosa dilacerada
Não deixe a cria angustiada
Não deixe a lágrima petrificada

Que posso fazer, meu amor?
Essa raiz tão destroçada
Que posso fazer, por favor...

terça-feira, 13 de maio de 2008

Nenê nini

Querido diário,

Faz tempo, hein, garotão?
Pois é. Ganhei outro filho. Ao contrário do irmão, este eu não gerei, já veio pronto na cestinha, na porta de casa. Há seis meses eu já fazia o enxovalzinho dele e nem sabia que seria meu.

Já o outro, não sei que fim teve, só sei que o gerei. Ficou lá, presinho na gaveta do tempo, respirando o pó da saudade. Às vezes abro uma frestinha da gaveta, para ver se ele ainda se mexe. Eu mesma faço com a cabeça que sim, e esse balançar engana a visão e me dá a impressão de que ele ainda vive. Quiçá.

Mas é do novo que tenho de lhe contar. Deus é um piadista, você sabe? E, pois, que esse bebê veio das mãos do oponente. Não direi inimigo, porque com inimigo não quero papo, nem filho, nem sobrinho.

Este veio depois que deixei o circo. Aquela tenda de horrores. (Bem é verdade que sinto saudades de meus amigos palhaços, mas o que se há de fazer? O sol há de brilhar para eles também.)

Tão lindinho meu pequeno! Mexe os bracinhos me pede colo, me olha com os olhos puxadinhos, que me fazem lembrar da prisão, onde deixei meu carinho eterno.

Olho para meu pequenino, fruto da anedota divina, e penso no meu desespero de mãe. Não tenho leite para amamentar, não fiz pré-natal, não gerei, não pari. Não sei cantar canções de ninar, não sei embalar, aquietar o choro.

Só sei que o aceitei, e é assim que tem de ser. E como podia ser diferente? Ele já veio pronto, já meu, me pedindo colo, querendo meus afagos. E eu dei. Agora é esperar que ele cresça, se desenvolva e deixá-lo andar sozinho, pra mais tarde, a mamãe pode nadar em águas mais profundas.

Beijo, nego!
Cris

domingo, 4 de maio de 2008

Xô te contar

Concurso de contos no Estadão.

Tema: última frase da canção Chega de Saudade ("Não quero mais esse negócio de você longe de mim")

Até três mil caracteres. Quero ver o teu poder de concisão. Rá.

Mais informações aqui.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Claro e escuro

"Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava".

O bicho (Manuel Bandeira)


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.


Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.


O bicho, meu Deus, era um homem.

Penso que, os poetas, em sua maioria, tocam no assunto da pobreza e da exclusão social, porque é a maneira com que, cada qual com sua (des) crença e sensibilidade profunda, conseguem exprimir, materialmente, o que pode acontecer com a miséria da alma humana.

Ainda bem que onde há o grotesco, há o sublime. E Ele viu que era bom.



segunda-feira, 7 de abril de 2008

Não desisto!

Acabo de ler, no Blog dos Quadrinhos, que foi lançada uma adaptação de contos de Kafka, "Desista! E Outras Histórias de Franz Kafka", na editora Conrad. Além de ter me chamado da atenção, isso me fez lembrar uma discussão que ouço há um bom tempo, principalmente nos cursos de língua.

Seria a história em quadrinhos uma versão decaída da literatura? Ao adaptar grandes clássicos, com já o fizeram com Proust, Machado de Assis e Cervantes, os autores dessas adaptações estariam fazendo um desserviço ao incentivo à leitura e, por conseqüência, ao pensamento crítico?

Já vou adiantando a minha opinião: não. De fato, eu considero o texto tradicional (aí entram o romance, o conto, as biografias e afins) como gênero mais profundo para o desenvolvimento do intelecto e do pensamento crítico. Mas isso não significa que a HQ seja um gênero menor. É, apenas, diferente.

Para mim, seria o mesmo que dizer que não vale a pena adaptar uma obra literária para o cinema. É bem verdade que, geralmente, o livro supera o filme (isso se não for unânime). Mas isso não desconsidera a sétima arte, muito pelo contrário, é um novo desafio, um novo recorte da realidade (ou do imaginário) dos profissionais do cinema em relação àquela determinada obra.

Confesso que não boa conhecedora de HQs. Aliás, não posso dizer isso nem de literatura e cinema, apesar de gostar muito e já não conseguir viver mais sem. Mas tiro meu chapéu a todos esses autores que se embrenham na criação de histórias em quadrinho e, aí, incluo aqueles que encaram a adaptação de grandes clássicos da literatura, transformando-os em novas manifestações artísticas, com suas próprias formas de expressão.

Em outras palavras, Kakfa em quadrinhos? Mãe, eu quero.

domingo, 30 de março de 2008

Dileta

Qual a sua música preferida? Essa foi a pergunta que me fizeram no final dessa semana que passou. Poderia ser uma questão qualquer, como sempre fazem, para formar nosso perfil e ponto. Mas ela tinha um sentido retórico e didático, e isso me fez refletir. Um pouco depois, uma dica: nossas músicas preferidas são aquelas que não conseguimos ouvir uma só vez, precisamos repetir várias vezes, porque elas nos levam a outros planos.

Você deve estar pensando que é impossível ter uma única música preferida, afinal, há muita composição boa de diversos gêneros, nacionalidades e épocas. Mas dá para fazer uma listinha das mais mais se pararmos para refletir com calma.

E foi pensando nisso que elegi "João e Maria", de Chico Buarque e Sivuca, como uma das minhas mais preferidas. No momento, é a que mexe mais comigo. Não por ser do Chico (adoro, mas esse fanatismo "intelectualóide" por ele vem me incomodando há tempos), mas por, realmente, tocar lá no fundo da alma, bem onde ninguém enxerga, e que você nem sabia direito que existia dentro de si.

Ela nos leva ao universo onírico e infantil, resgatando-nos a vida feliz e desprendida que tínhamos na infância, a espontaneidade, a liberdade, a imaginação, que nos permite o poder de tudo.

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Somos levados ao mundo da juventude, da aventura, da autonomia da criança grande que começa a colocar suas próprias regras no jogo da vida. Apesar de trazer um universo puro, não deixa de ter um toque de sensualidade, não permissiva, mas permitida, pois, no mundo dele, ele é rei.

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz

E pela minha lei

A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa que eu fiz coroar

E era tão linda de se admirar

Que andava nua pelo meu país

Ela nos fala do amor, do amor livre e cheio de bondade, em que cada um quer ser o brinquedo do outro, com a certeza de que será o mais bem tratado possível (as crianças têm seus brinquedos como um tesouro!).

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo

Eu era o seu pião

O seu bicho preferido

Vem, me dê a mão

A gente agora já não tinha medo

No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Contudo, o mas. As crianças crescem, a imaginação é interrompida, e a gente tem de acordar. E nós, criados para o Amor, ficamos, assim, como loucos. Loucos de amor, loucura essa que é sanidade, pois amar é nosso fim. Permanecemos olhando para essa vida finita que mais parece uma noite escura e sombria. E nós, insanos enamorados, acabamo-nos sós, com nosso livre-arbítrio, procurando aquela tal liberdade de nossos anseios. Ficamos, por fim, pequenos adultos, com nossas debilidades, ancoradas na interrogação da esperança.

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim

Pra lá deste quintal

Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no mundo sem me avisar

E agora eu era um louco a perguntar

O que é que a vida vai fazer de mim?

sábado, 22 de março de 2008

A Saga do Coração Orelhudo – Parte III

Não adianta estender a mão para quem não quer se levantar. Faz sentindo procurar alguém que quer crescer como pessoa por vontade própria. Ele, naturalmente, vai te ajudar a ser melhor também.

(...)

-Seria bom que essa saga acabasse por aqui. Eu gosto do número três, o que você acha, Dori?
-
Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar...
-
Fora que eu nem acho ele orelhudo. Ele é bem sabido!
- Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar...