domingo, 30 de março de 2008

Dileta

Qual a sua música preferida? Essa foi a pergunta que me fizeram no final dessa semana que passou. Poderia ser uma questão qualquer, como sempre fazem, para formar nosso perfil e ponto. Mas ela tinha um sentido retórico e didático, e isso me fez refletir. Um pouco depois, uma dica: nossas músicas preferidas são aquelas que não conseguimos ouvir uma só vez, precisamos repetir várias vezes, porque elas nos levam a outros planos.

Você deve estar pensando que é impossível ter uma única música preferida, afinal, há muita composição boa de diversos gêneros, nacionalidades e épocas. Mas dá para fazer uma listinha das mais mais se pararmos para refletir com calma.

E foi pensando nisso que elegi "João e Maria", de Chico Buarque e Sivuca, como uma das minhas mais preferidas. No momento, é a que mexe mais comigo. Não por ser do Chico (adoro, mas esse fanatismo "intelectualóide" por ele vem me incomodando há tempos), mas por, realmente, tocar lá no fundo da alma, bem onde ninguém enxerga, e que você nem sabia direito que existia dentro de si.

Ela nos leva ao universo onírico e infantil, resgatando-nos a vida feliz e desprendida que tínhamos na infância, a espontaneidade, a liberdade, a imaginação, que nos permite o poder de tudo.

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Somos levados ao mundo da juventude, da aventura, da autonomia da criança grande que começa a colocar suas próprias regras no jogo da vida. Apesar de trazer um universo puro, não deixa de ter um toque de sensualidade, não permissiva, mas permitida, pois, no mundo dele, ele é rei.

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz

E pela minha lei

A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa que eu fiz coroar

E era tão linda de se admirar

Que andava nua pelo meu país

Ela nos fala do amor, do amor livre e cheio de bondade, em que cada um quer ser o brinquedo do outro, com a certeza de que será o mais bem tratado possível (as crianças têm seus brinquedos como um tesouro!).

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo

Eu era o seu pião

O seu bicho preferido

Vem, me dê a mão

A gente agora já não tinha medo

No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Contudo, o mas. As crianças crescem, a imaginação é interrompida, e a gente tem de acordar. E nós, criados para o Amor, ficamos, assim, como loucos. Loucos de amor, loucura essa que é sanidade, pois amar é nosso fim. Permanecemos olhando para essa vida finita que mais parece uma noite escura e sombria. E nós, insanos enamorados, acabamo-nos sós, com nosso livre-arbítrio, procurando aquela tal liberdade de nossos anseios. Ficamos, por fim, pequenos adultos, com nossas debilidades, ancoradas na interrogação da esperança.

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim

Pra lá deste quintal

Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no mundo sem me avisar

E agora eu era um louco a perguntar

O que é que a vida vai fazer de mim?

sábado, 22 de março de 2008

A Saga do Coração Orelhudo – Parte III

Não adianta estender a mão para quem não quer se levantar. Faz sentindo procurar alguém que quer crescer como pessoa por vontade própria. Ele, naturalmente, vai te ajudar a ser melhor também.

(...)

-Seria bom que essa saga acabasse por aqui. Eu gosto do número três, o que você acha, Dori?
-
Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar...
-
Fora que eu nem acho ele orelhudo. Ele é bem sabido!
- Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar...

sexta-feira, 14 de março de 2008

Teimosia

Hoje vi um homem que comia macarrão escondido nos sacos de lixo. E espremi os olhos, para ver se o choro saía.

Hoje cheguei ao meu destino, e tudo estava escuro. E nem percebi quando a luz voltou.

Hoje me arrumei bonita. E acabei borrada de rímel.

Hoje descobri que meu amor é de mentira. E até agora não encontrei a Verdade.

Hoje descobri que eu vivo num mundo paralelo. E não sei qual dos mundos é o mais duro.

Hoje quis apagar tudo. E percebi que não ia adiantar.

Juraildes fala melhor por mim:

Correr de Mim

Letra de Juraildes da Cruz

Eu pensei correr de mim,
Mas aonde eu ia, eu tava
Quanto mais eu corria,
Mais pra perto eu chegava

Quando o calcanhar chegava,
O dedão do pé já tinha ido
Escondendo eu me achava,
E me achava escondido
Só sei que quando penso que sei,
Já não sei quem sou
Já enjoei de me achar
No lugar que aonde eu vou, eu tô

Eu pensei correr de mim,
Mas aonde eu ia, eu tava
Quanto mais eu corria,
Mais pra perto eu chegava

Tô pensando em tirar férias de mim,
Mas eu também quero ir
Só vou se minha sombra não for,
Se ela for eu fico aqui
Um dia desses sonhando eu pensei:
Não vou me acordar,
Vou me deixar dormindo
E levanto pra comemorar

Eu pensei correr de mim,
Mas aonde eu ia, eu tava
Quanto mais eu corria,
Mais pra perto eu chegava

O espelho me disse:
Só tem um jeito pro assunto
Não adianta querer morrer
Porque se morrer vai junto
Se correr o bicho pega
Mas se limpar o bicho some
Tem que desembaraçar
O novelo da vida do homem

Se quiser que eu vá, eu vou
Se quiser que eu fique, eu fico
Quero ver você sair, meu irmão
Dessa sinuca de bico

Eu pensei correr de mim,
Mas aonde eu ia, eu tava
Quanto mais eu corria,
Mais pra perto eu chegava

quarta-feira, 5 de março de 2008

A favor...

De chocolate;
De banho de chuva;
De música boa;
De beijo e de abraço;
De pão e de circo;
De balé e de nariz-de-palhaço

Do mar;
Das luzes da Avenida Paulista;
De todos os sorrisos sinceros;
Do nascer e do pôr-do-sol;
De samba e de rock;
De lasanha e de pudim de leite

De justiça social;
De respeito à natureza;
Do avanço das pesquisas científicas;
Da tolerância e do respeito às diferenças;
Da dignidade do homem e da mulher;
Das pazes entre Deus e o ser humano

Do Bom, do Belo e do Bem.



Da Vida, em quaisquer circunstâncias.

Assista ao vídeo. Ele é bem mais importante que as "palavras-agodão-doce" acima.