segunda-feira, 21 de abril de 2008

Claro e escuro

"Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava".

O bicho (Manuel Bandeira)


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.


Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.


O bicho, meu Deus, era um homem.

Penso que, os poetas, em sua maioria, tocam no assunto da pobreza e da exclusão social, porque é a maneira com que, cada qual com sua (des) crença e sensibilidade profunda, conseguem exprimir, materialmente, o que pode acontecer com a miséria da alma humana.

Ainda bem que onde há o grotesco, há o sublime. E Ele viu que era bom.



segunda-feira, 7 de abril de 2008

Não desisto!

Acabo de ler, no Blog dos Quadrinhos, que foi lançada uma adaptação de contos de Kafka, "Desista! E Outras Histórias de Franz Kafka", na editora Conrad. Além de ter me chamado da atenção, isso me fez lembrar uma discussão que ouço há um bom tempo, principalmente nos cursos de língua.

Seria a história em quadrinhos uma versão decaída da literatura? Ao adaptar grandes clássicos, com já o fizeram com Proust, Machado de Assis e Cervantes, os autores dessas adaptações estariam fazendo um desserviço ao incentivo à leitura e, por conseqüência, ao pensamento crítico?

Já vou adiantando a minha opinião: não. De fato, eu considero o texto tradicional (aí entram o romance, o conto, as biografias e afins) como gênero mais profundo para o desenvolvimento do intelecto e do pensamento crítico. Mas isso não significa que a HQ seja um gênero menor. É, apenas, diferente.

Para mim, seria o mesmo que dizer que não vale a pena adaptar uma obra literária para o cinema. É bem verdade que, geralmente, o livro supera o filme (isso se não for unânime). Mas isso não desconsidera a sétima arte, muito pelo contrário, é um novo desafio, um novo recorte da realidade (ou do imaginário) dos profissionais do cinema em relação àquela determinada obra.

Confesso que não boa conhecedora de HQs. Aliás, não posso dizer isso nem de literatura e cinema, apesar de gostar muito e já não conseguir viver mais sem. Mas tiro meu chapéu a todos esses autores que se embrenham na criação de histórias em quadrinho e, aí, incluo aqueles que encaram a adaptação de grandes clássicos da literatura, transformando-os em novas manifestações artísticas, com suas próprias formas de expressão.

Em outras palavras, Kakfa em quadrinhos? Mãe, eu quero.