domingo, 27 de julho de 2008

Quinta-feira, 18 de outubro

Anda muito levada, teimosinha, mas é próprio da idade. Tudo quer ver, pegar, palpar, explorar. Faz gracinhas, tira os calçados dos pés, abre as torneiras, molha-se toda e mil e uma travessuras. É chegadinha em lápis e canetas (mais em canetas). Rabisca o que encontra pela frente. Certo dia, rabiscou tanto seu próprio corpinho e, com a carinha mais inocente desse mundo, me disse "Queví manhê, tá unito, tá?". Aprendeu a palavra cada uma, lá na escola, e a emprega vez por outra. Entrega um objeto para mim, para o Filipe e acrescenta a palavra nova. Filipe se põe a admirá-la e dá umas gargalhadas com ela. Ensina uma e outras para a irmãzinha, como por exemplo: "Imita um elefante, Cris!". E ela responde com um grito que aprendeu com ele. Isso fazem exatamente nas horas críticas, quando coloco o jantar na mesa, quando já foram pra cama e até dentro da igreja fazem certas tentativas...Só eu sei, são uns amores, gracinhas da mamãe!
A menina cresceu e continuou teimosa. Uma teimosia menos graciosa que a faz sofrer e sofrer. Vez ou outra, ela olha para a luz e se lembra que certas teimosias valem a pena, e ela, então, volta a sorrir.
A menina chegadinha em lápis e caneta fez desses brinquedos seu trabalho. Ela treme nas bases só de pensar no peso daqueles brinquedos. Apaixonada pelas letras e pelas palavras, tece uma folha branca de papel como quem tinge de sangue o peito de um infante.
A menina, cheia de nostalgia, acha que já não aprende mais com seu irmão mais velho. Talvez, daqui alguns anos, ela descubra que ainda aprendia sem perceber.
Sente vontade de chamá-lo e perguntar: Como é o grito do elefante mesmo?
Mas ela teme que ele tenha esquecido ou que receba como resposta um sorriso amarelo.
Prefere não correr o risco e imaginar que o elefante ainda está lá, dentro deles dois, numa fusão. Todo sujo de canetas, embaixo da torneira, tentando se lavar.

E com a carinha mais inocente desse mundo.

domingo, 20 de julho de 2008

Arte, fato

Eu pelo de medo toda vez que escrevo uma matéria envolvendo economia. Não que política ou cultura não sejam também assuntos delicados. São sim, até mais, dependendo do caso. Mas, economia me dá mais receio ainda. Talvez por ser um assunto, muitas vezes, instável, cheio de jargões e especulações. Acho fascinante algumas vezes, complicado em outras e manipulador em quase todas. Eu temo estar sendo enganada, me enganando e enganando o pobre leitor.


Quando escrevo uma reportagem que envolve muitos dados e muito dinheiro, lembro das vezes em que li matérias sobre religião. Assunto esse que considero de maior importância, embora esteja fora de moda. Não manja do assunto? Então não escreve! É incrível como tem jornalista (não só jornalista) metido a besta querendo dizer que sabe o que não sabe. E é na cara dura! É com juízo de valor mesmo, com uma carga de subjetividade sem tamanho que nem um artigo mais panfletário suportaria.E, então, me pego cheia de escrúpulos, tentando evitar erros crassos, sem perder a credibilidade e o texto envolvente.


Há um ano e meio, fiz meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, um vídeo que envolvia uma série de artistas, e, em uma das entrevistas, uma cantora começou a enumerar a arte em seus variados gêneros: "No teatro, na música, no circo, no cinema, no jornalismo...". Haha! No jornalismo? Ela quis agradar a gente, né? Edita isso aí. E foi, assim, que a fala parou no cinema mesmo.


Não me arrependo de ter editado a frase dela. Ia ser um pouco ridículo mesmo. Mas, pensando bem, às vezes, o jornalista tem de ser um pouco artista sim. Bem ou mal, de forma quadradinha ou não, lidamos com texto. E escrever texto é sempre uma arte. O duro é lidar com arte e com precisão dos fatos ao mesmo tempo. Haja malabarismo.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O brinquedinho da menina

Ela era pequenina e branquinha. Cabelos loiros e ondulados, a tez delicada, o nariz meigo e o sorriso brando. Suas mãozinhas pareciam leques de algodão. Seus olhos azuis, tão azulzinhos, iam de encontro ao mar, batiam na onda fria do horizonte e refletiam a vaidade gélida das almas humanas.

De fala mansa e gestos ternos, seduzia a todos. Era quietinha, porém graciosa. Dançava, tocava, cantava e encantava. Todos se admiravam com tanta beleza em um corpinho tão pequenino. Tantos encantos sutis. Tanta poesia discreta.

A menina, mimada que era, tinha muitos brinquedinhos. Um deles era o seu preferido. Um ursinho sem cor e simplório. Ela levava o ursinho para todos os lugares. Dançava com ele, lia-lhe historietas, cantava para ele. Junto ao seu peito, o ursinho se encaixava muito bem.

O ursinho sem nome era seu melhor amigo. Riam muito, comiam geléia de damasco, procuravam ameixas no pudim, caçavam borboletas brancas para fazer um pedido. O ursinho sem voz dava conselhos à menina. Mostrava que seu vestidinho de organza e cetim estava manchado. Ajudava a menina nos deveres escolares.

Vez ou outra, ela olhava para o seu vestidinho manchado e tinha raiva. Olhava para o laço xadrez do ursinho e o picotava em mil pedaços. Cortava a ponta de suas orelhas! Arrancava-lhe o nariz! Mas, sim, ela o amava! Como amava seu ursinho!

Um dia, a menina resolveu afiar sua tesourinha nas pernas do seu ursinho. O ursinho amava sua amiguinha. Mas amava mais as suas pernas. Porque, sem elas, não poderia fugir para proteger seu coração.

O ursinho pegou suas coisas e foi brincar na casa do Joãozinho. E por lá ficou.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

...ululante que pulula nas mentes humanas

Estava eu fazendo um trabalho para a licenciatura e, eis que senão quando (adoro essa expressão), deparo-me com esse trecho:

“A partir do intercâmbio virtual entre esses educadores da Antigüidade e os de hoje, além da necessidade de ambos em dialogar com inquietude e com as alternativas possíveis, nos prova, a todo momento, algo extremamente óbvio. Óbvio, pelo menos para quem ainda se dispõe a olhar para o céu quando sai pela manhã e diz “bom dia” ao transeunte e ao jardineiro: é necessário sensibilidade”.
Cara, casei.
Hei, você! Tenha um bom dia=)