quarta-feira, 17 de junho de 2009

Littera

Eu gosto de cartas e gosto de flores. Mas deixemos as flores em seu jardim. Fiquemos com a primeira.
A carta permite que você leia o que foi escrito de mil e uma formas. Admite que você seja o seu próprio autor e muitos outros leitores.
A leitura é um convite e uma violação. Eu preciso rasgar o envelope para saber o que tem dentro. Na carta, eu posso sentir a finura do papel e o peso das suas palavras. Posso enxergar sua mente em seus traços e sentir seu cheiro de perto e de longe.
Nela, não existe Ctrl C, Crtl X, Ctrl V. Em seus rabiscos, posso julgar todos seus vacilos, indecisões, desânimos e cansaços. Se você quiser ter a escrita impecável, no mínimo, vai ter de procurar um dicionário. E, mesmo assim, você vai errar, e eu não vou perceber.
Se você desistir de tudo, é preciso muita coragem para rasgar e recomeçar. Talvez o desânimo, o medo e o desdém nunca permitirão que ela chegue. E, se ela vem até minhas mãos, é porque, mesmo sobrando covardia, não faltou audácia.
Ela pode durar anos ali, na estante, e posso lê-la todos os dias. E todos os dias entender mais um pouco de você e de mim.
Ela pode ficar guardada na gaveta, e eu nunca mais tocá-la. Eu posso esquecê-la ou guardá-la na memória, do meu jeito, com a minha letra. Eu posso lê-la e abraçar junto ao peito, com um sorriso nos lábios.
Eu posso amassá-la e jogá-la no cesto de lixo, junto aos papéis higiênicos, bitucas de cigarros e absorventes usados.
E se quiser que ela nunca exista, eu vou precisar queimá-la. E permitir que o vento e a terra sejam seus leitores. A chuva, deixo para consolar-me os olhos.
E mesmo assim, eu peguei, eu senti, eu cheirei, eu repeti palavra por palavra, saboreando-as todas em minha boca.
Seus pingos nos is são difíceis de engolir, é preciso mastigar muito. Seus adjetivos são adocicados e suas lacunas são sombrias. Suas declarações me salvam da insanidade.
Sua falta de ponto final e de acento me dão fome. Suas exclamações são o tempero que faltava. Suas reticências...ah...reticências...Nem as mais potentes labaredas podem incinerar.
E, em cada linha, você toca em alguma parte de mim. E nossas almas se afastam e se fundem nas entrelinhas.
Eu leio devagarzinho para não perder nenhuma letrinha. E corro os olhos sem fôlego em busca da despedida. Só assim te encontro.

domingo, 14 de junho de 2009

Fon-Fon!

- Meu, vai logo, cacete!!! Que molengão!

- Calma, é só um velhinho, ele está no tempo dele...

-FOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOON!

-Puta que o pariu, moleeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!

-Você não precisa gritar, nem falar palavrão. Cara, são sete da manhã, pra que tanto pique?

-Eu não sei fazer baliza, me ensina?

-Ensiiino.

- Por que tem muita mulher que não sabe fazer baliza? Eu nunca vi homem que não sabe fazer baliza. Acho que se eles não sabem, não revelam. Será que a noção espaço-temporal está diretamente ligada à testosterona?

- Atitudeeeeeee!!! No carro você tem de ter atitudeeee!

- Mas ela não é temerosa e já bateu duas vezes.

-O seguro da mulher é menos caro porque elas tomam mais cuidado no trânsito.

- Cara, não acredito, eu estacionei mó longe da guia.

- Tá bom assim, vamo!

-Não, eu vou arrumar.

-Tá tarde, vamo!

- Não, eu quero arrumar...

-Depois você arruma!

- Eu não gosto muito de dirigir na cidade. Trânsito, farol e lombada. Fora que não gosto de trocar de pista. Prefiro a marginal – sem trânsito – me sinto liiivre!

- Aqui na terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock'n'roll, uns dias chove, noutros dias bate sol!♫

- Andôôôôôôô!!!

- O carro é uma extensão fálica do homem. Ali ele deposita toda a sua masculinidade. É como se fosse uma auto-afirmação.

- Você acha que eu dirijo bem?

- Dirige...Mas, sei lá, você deveria ser mais agressiva, sabe, dirigir que nem homem!

- Como assim?

-Por exemplo, o jeito que você gira o volante...

- Hahahaha, ela dirige muito mal, né? Olha que eu não reparo muito como as pessoas dirigem. Só quando chama muito a atenção. Mas eu acho engraçado, porque ela num liga. Já, pra mim, você dirige bem, não sei explicar. Fluuuuuuui.

- Cara, ele corre muito, parece que tá num rali! Não gosto de pegar carona com ele não.

-Aprendi a estacionar de ré! Só falta saber fazer a bendita da baliza.

-Você tirou carta com quantos anos?

-Vinte.

-E você?

-Dezoito.

- Então, o teatro é na Maria Antônia, deve ser pela Consolação...

- Faz 40 minutos que eu to tentando chegar ao lugar!!!

-Desculpa, eu tenho dificuldade de prestar atenção quando não tô dirigindo... Eu gosto de guia, cadê o guia? Ah, eu não gosto do GPS.

- Meu, isso irrita as pessoas, não tem de cortar a fila.

- Eu, não, bando de bobão, não vou ficar nesse trânsito, não.

- Ele deve estar puto com você...

- FONNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN!!!

-Ai, o que foi, já vô, já vô! Estressado!

-Mulher não dá passagem, mas eu dou. Elas são antipáticas, não quero ser igual. Os homens dão passagem...

- Que cara folgado, ele deu um totó no carro da frente só porque tá trânsito, ai, que ódio!!!

- Ele tava com uma garrafa na mão, cara, primeiro de janeiro e já me vem um playboyzinho desse, tem dó. Filho da mãe...

- Sabe, eu acho que o jeito de dirigir tem muito a ver com a personalidade da pessoa. Minha mãe, por exemplo, meu, buzina toda hora, e ela é expansiva, sabe. Já meu pai, ele não buzina nem por decreto, é mais fechado. Eu acho vou ganhando segurança na direção aos pouquinhos, como tudo na minha vida...

- Abriu o sinal.