sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Confissões de adolescente

Há quinze anos eu tinha onze, quase doze. Eu comprava aquelas revistinhas fúteis que não tinham texto, só fotos de caras famosos e bonitos. E, sim, eu vou queimar o meu filme, o meu preferido era o cantor Jon Bon Jovi. Eu e minha melhor amiga éramos loucas por ele! Tinha um pôster dele atrás da porta do meu quarto e, de vez em quando, lhe dava um selinho. Yes, I gave love a bad name.

E não muito diferente de agora, tinha sonhos e fazia mil e uma novelinhas na minha cabeça. Por ironia da vida, detesto novela. Não apenas porque já bastam as minhas, mas porque as minhas são muito mais legais que os boçais folhetins globais.

Eu sonhava com meus dezenove anos. Quando você tem onze, dezenove é muuuuuita diferença. Ia dirigir o meu carro, ter uma tatuagem de beija-flor na canela, fumar – dirigir fumando, propriamente -, e estaria cursando jornalismo. Teria cabelos compridos até a cintura – e sedosos, de propaganda de xampu – que atrairiam todos os rapazes. Sim, eu seria A mina! Anos mais tarde, eu já seria muito velha. Com uns vinte e poucos. Trabalharia numa redação loucamente e já estaria no meu quinto, sexto namorado.

Hoje, meus sonhos não chegaram a debutar. Porque – graças a Deus! – eles amadureceram. Fumei um cigarro ou outro na vida. A última vez (tirando duas tragadas póstumas de brincadeira, não conta, vai), foi aos dezoito na viagem de formatura do colegial. E eu me senti patética imitando todo mundo. Não tinha percebido isso antes, não foi de propósito, veio assim, do nada. Aviso aos fumantes: não é uma indireta a vocês, eu é que me senti assim, ok? Sentia que estava fazendo só para ser bem aceita, que minha garganta arranhava a semana inteira depois, e que não tinha nada a ver comigo. Confesso que há uma sensação gostosinha de tragar e beber ao mesmo tempo. Acontece que meu pobre coraçãozinho sensível não suporta sensações gostosinhas efêmeras seguidas de dores perenes.

Quanto aos meus cabelos, nunca tive paciência de deixá-los chegar à cintura, as pontas sempre ficavam horrivelmente duplas, ou melhor, múltiplas, antes disso. Não tenho carro - de vez em quando dirijo o da minha mãe -, estou guardando dinheiro para algo maior.

Fiz jornalismo e letras e descobri que a profissão não é tão romântica assim, mas que me inspira sonhos mais bonitos e mais concretos. Levei mais tempo para namorar do que eu imaginava. Insegurança? Provável. Exigência? Quem mandou ser sonhadora! Amante da liberdade? Cada vez mais, a ponto de perceber que estar só não significa estar livre.

E a tatuagem? Bem, desculpe quem a tem (é capaz que eu goste da sua), mas comecei a achar um beija-flor na canela meio brega. Há pouco tempo, eu mesma desenhei a minha e, assim como ela teve hora para ser desenhada, terá hora para ser feita. E é bem capaz que você não perceba quando ela chegar. Porque eu sou assim, petit à petit, caminhando aonde quero sem desejar nenhum estardalhaço.

E daqui quinze anos, onde vou estar? Agora fica difícil imaginar, visto que não me cabem mais sonhos adolescentes, e a experiência me mostra que eu não vou estar muito diferente do que sou agora. E que meus sonhos chegarão amenos, mas surpreendentes, porque os que tenho realizado até agora me enchem de alegria e de esperança.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Só você

Existe um ponto onde nem tudo, nem nada tocam. Nem o mais singelo sorriso, nem a mais espessa lágrima. Nem a paz que a pureza traz, nem a agonia da guerra fria. Nem palavra de consolo, nem a alegria do perdão comovem. Nem o elogio, a calúnia ou a mentira atingem. Não. Nem a fidelidade ou a traição. Nem a beleza de Apolo, nem as festas de Baco, nem o amor de Vênus ou a vaidade da Medusa. Nem o latido de Coragem, o cão covarde, nem o charme de Penélope. Nem as pintinhas dos cento e um dálmatas ou a vileza da Cruela. Tampouco a bravura de Davi, a espada de Artur ou a astúcia de Odisseu. Nem os róseos dedos de Aurora ou os glaucos olhos de Palas Atena. Nem o cinismo de Machado, a prolixidade de Proust ou os neologismos de Rosa. Nem o colo de pé de Cecília, a voz de Sinatra ou a interpretação de Elis. Nem a serenidade de Ghandi, nem o surrealismo de Dali. Nem o prazer gostoso de ver e ouvir o fósforo queimar. Nem o alívio de Gelol em joelho batido, nem o deleite de estourar plástico bolha. Nem coloridas bolinhas de sabão, ou o som infantil da caixinha de música misturado com bolinhos de chuva. Nem chocolate. Nem beijo ou abraço. Nem o silêncio, nem o grito, nem mesmo o vazio. Nem o medo do abismo. Nem a pobreza, a violência e a fome. Nem a inveja e maldade do mundo. Nem meus bichinhos. Nem meus melhores amigos. Nem o amor de mãe, nem a proteção do pai ou o ombro do irmão. Nem meu Bom Anjo, São José, meu Santo Antoninho, João Paulo II ou Santa Teresinha. Nem o doce colo da Virgem Maria. Nem o amor da minha vida nesse lugar habita. Nem eu estou lá. Existe um ponto, em mim, bem preciso e maciço, de compassos constantemente involuntários, onde não tem nada, nem ninguém. Só você.