quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Papai é alternativo

“Chico Buarque é chato, pai.” “Espera até você ter 20 anos, filha”. Quando era criança, eu achava as canções da chamada MPB meio entendiantes, e o samba tão brega quanto o pagode. Cartola e Pixinguinha, então, nem pensar! Enquanto isso, colocava o LP dos "Saltimbancos" bem alto na sala e ficava me deleitando e interpretando seus personagens, dando uma única trégua ao chato do Chico. Também gostava de “O Grande Circo Místico”, mas só por causa da música da bailarina.

Eu também costumava achar literatura uma matéria imbecil. Por que eu tenho de estudar sobre livros? Livros eu tenho de lê-los e os que quero, não por imposição. E como se não bastasse, aniversário após aniversários ganhava livros de papai. O meu presente predileto foi aos 17. “À Cristina, aos seus 17 anos, para que nunca perca a poesia”. Desde então, Fernando Pessoa não saiu mais da minha cabeceira. Foi justamente nesse ano que literatura passou de a matéria mais inútil para a minha predileta.

Não tardou muito tempo, ouvi “Valsinha” de um professor de literatura, um dos caras mais estranhos que já vi. Mas foi ele quem fez me apaixonar pelo Chico e, sem perceber, estava gostando de samba e das ditas MPBs. E de jazz. E das coisas ultrapassadas que meu pai sempre me apresentava.

À minha família devo infinitas coisas. É inegável a boa cultura (ou aquela que considero boa) que recebi do meu pai. Ele é engenheiro e é a pessoa que mais lê, para para ouvir música em frente ao aparelho de som e assiste a clássicos dos cinema em casa. Indubitavelmente.

Há pouco tempo, topei com faapianos do cinema. Esses aí super excêntricos e...alternativos! E eles tinham óculos do tempo do gramofone iguais aos do meu pai! Foi aí que pensei, “Taí, papai é um alternativo autêntico”, porque ele usa esses óculos desde antes de começar e deixar de fumar cachimbo.

Bem, eu não tenho a menor pretensão de usar óculos. Meus olhinhos vão bem, obrigada. Muito menos os iguais aos do meu pai. Mas pretendendo ouvi-lo mais vezes, que meu preconceito não me impeça mais de conhecer o lindo universo do “alternativo” mais autêntico do mundo. Do meu mundo!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

De mansinho

O meu amor chegou de mansinho, inofensivo, despretensioso. Mas, nem por isso despercebido.
Como água que toca os pés descalços, calejados de tanto andar. Pés sensíveis e independentes. Pés que não conseguem estar parados, que buscam, a todo instante, um chão para pisar, um espaço a percorrer, uma coluna para o corpo sustentar.
O meu amor foi crescendo dos pés ao calcanhar, descobrindo minhas couraças, medos e inseguranças, sem me julgar.
O meu amor tocou minha cintura, deixando-me flutuar com as pernas bambas, não me deixando mais ver o chão.
O meu amor gelou minha barriga (ele faz isso a todo instante), lembrando-me o quanto dá medo amar.
O meu amor invadiu meu peito, dizendo que tem pressa para chegar.
O meu amor imergiu-me inteira e desmanchou-me a razão, mostrando que a vida é muito curta para em águas mais profundas não querer navegar.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Especiarias

Cavando a agulha nesse tecido putrefato,
lembro do nosso primeiro beijo
Doce, manso, delicado
Linha, após linha, sangue, conflito e desato

Sepultando o cheiro desse pobre moribundo,
rogo-lhe uma prece
E, da uva e do trigo diários,
seus suor e cabelos comungo

Nutrindo a boca desse rejeitado faminto
ouço suas palavras enamoradas
Acalento, carinho, veracidade
De colheradas, vai se apartando a saudade que sinto

Banhando esse corpo roto e desnudo,
vejo condensada a imagem de seu rosto
E, da branda memória pelo vapor do calor,
sem piscar, vejo-lhe em pé, na minha frente, mudo

E o mundo cai.
R
od
opio
...Desvario em noite clara!
E enxergo, em madrugada fresca, todas as estrelas que não mais contava



Misericórdia - Acrilico sobre Paraná - Patrícia Moreira