domingo, 26 de dezembro de 2010

Cenografia

Faz tempo que não me sento aqui. Sinto uma saudade quente. Se antes cantava o samba, agora, busco o silêncio. Encontro-me com a solidão para ouvir um pouco de verdade.

Vamos beber ao morto.

Por aqui, madeira rangendo, pó na pia. Eu gosto do que vejo: a lenha queimada, o fogo ardente, o relógio bem-me-quer.

É um pouco frio e um tanto abafado. Já consigo ver na penumbra a fina fuligem. Quero limpar.

Mas antes vou ficar sentada aqui, respirando bolor, aspirando eucalipto.
Que venha a estrela, que aquieta o samba, dar cadência ao silêncio.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tudo passa

Pois foi assim. Ela gostava muito de uva-passa. Comeu, comeu, comeu, comeu. E quanto mais comia mais queria! E mais comia! E mais queria. E comeu, comeu, comeu.

E de tanta repetição se estufou.


Coitada dela. Nunca mais ela fez amizade com a uva-passa.

O mesmo aconteceu com a ricota.


Nunca mais, é bem verdade que é demais.


Depois de um tempo, tem um cadinho de prosa com a uva-passa. E o amor pela ricota voltou. Ameno, mansinho, sincero. Nem parecia que já tivera repulsa.


E naquele dia ela percebeu que não devia comer tanto medo. E que apatia era pior que azia.