segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Virada


Hoje deitei embaixo da árvore. Entre seus galhos, o sol brincava de esconde-esconde, enquanto meu benzinho dormia.
Os passarinhos trapeziavam de galho em galho, gorjeando as belas notas do passado calejado, que minha rouca voz desafinava. Planando no ar azul, assobiavam bons presságios para o ano-bem-me-quer! Enquanto isso, o mar me entoava lindas canções de ninar. 
Naquele instante, as horas se calaram, e o tempo pausou. Fez-se Feliz Ano Todo.

(Para Marina Faria)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O amado mar

- Diga lá, se sabe me dizer, onde cabe o amado mar?

- Cabe numa concha. Se você lhe der ouvidos para neles soprar...

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Let it be


Quando a gente é pequeno e passa uma formiga próximo a nós, dá um certo prazer, vez ou outra, pisar sobre ela. Lá se extingue uma vida. É como se a gente experimentasse um pouquinho como é ser Deus.


Ao nos fazermos adultos, ponderamos que talvez seja melhor deixá-la onde está, e essa descoberta é dolorosa. Se superada a tentação, descobrimos a novidade: deixar viver aproxima mais a criatura do criador.  

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Aqui e acolá. E olhe lá.


Uma mulher de 30 anos merecia mais, tripulante. Sou balzaquiana e com muito gosto. É uma idade bonita, e, dela, não tenho nenhuma vergonha. Ao contrário: queria ser todinha dela.

Iniciei, no entanto, uma nova década e com muitas dívidas para comigo mesma.
Eu esperava mais. Uma mulher madura, que soubesse se vestir, que não errasse o  passo, que soubesse o que queria, que não (se) perdesse. Que fizesse o que devia e que estivesse no que fizesse.

A maternidade, o dinheiro, o prestígio e as conquistas.  Eu esperava um amor, e esse eu conquistei, sou muito feliz e grata por isso. Mas estamos no mesmo barco, rodopiando a cada onda, maldizendo a tempestade. Desgastados, inocentes, carentes, mas de mãos dadas, com leme da fé e a bússola da esperança.

E eu me pego sem o direito de sonhar, porque me vejo em tudo, e quem quer tudo não tem nada. Eu almejo muito meus trinta da certeza.

Já não desejo mais o maravilhoso da infância, o romântico da adolescência, nem o fantástico da juventude. Quero o realismo doce da maturidade. Quero a alegria cotidiana, a luta, o silêncio, o sorriso no trabalho doloroso, os passos ao passo do relógio, a satisfação de um livro terminado, de um trabalho acabado. O reconhecimento de uma tarefa bem sucedida.

Não quero mais a escrita com metáforas e subterfúgios, quero, outrossim, o alívio da libertação, trancafiada no meu ofício. Custe o que custar.

Desculpe, leitor. Não é que perdi o gosto pela escrita e pela poesia, é que elas estão entaladas aqui, esperando um porto para ancorar.






sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Para Eduardo


Lá no topo e no planalto
Onde não tem dor, nem a dor de não ter dor
Você me explica
O que cada pincelada significa

Aqui é ata e desata
Tem cicatriz e ferida aberta
Você sabe
A que cada traço cabe

Utopia é um sonho de um lugar
Que não existe enquanto não chego
Quem é o dono do endereço?
Esse Pintor que desconheço.

(Você sabe, é preciso)

domingo, 5 de agosto de 2012

Esculpindo palavras


Conta-se que o renascentista Michelangelo – um dos meus artistas prediletos – via a escultura dentro da rocha antes mesmo de esculpi-la. Seu trabalho iniciava justamente observando as pedras por muito tempo, a fim de libertar as imagens existentes dentro delas.
Assim, acredito que possam estar todas as outras obras de arte. Você respira e aspira notas musicais num compasso ainda não descoberto. Nós dois ensaiamos pas de deux jamais apresentados. Da minha parte, interessa-me mais ainda as quantas histórias que pairam pelo invisível, ávidas por serem impressas no papel e vividas em nossas mentes. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A casa amarela

Naquela casa, de unhas de gato que tapam os números de vez em quando, entro pela porta da frente – mas nunca entendi por que chamam a outra de porta dos fundos se dá tudo pra frente da rua.

Passo pelas plantas todas, um dos carros está na rampa, porque ela vai lavar a garagem. O outro está do lado de lá da rua, embaixo da árvore, que não existe mais por conta do prédio da frente que acabou de ser erguido.

Entro na sala de visitas, a sala mais bem decorada do mundo porque foi ela quem decorou. O quadro de toureiro da vizinha, que se mudou depois que ficou viúva. Ao lado, outro quadro de Nossa Senhora de Fátima, acima do velho aparelho de som que ele jogou café, não funciona mais.

No chão o tapete avermelhado, os vasos com as plantas falsas que incomodam o namorado. O barzinho de canto, cheio de bebidas que ninguém bebe.

(Escondida, pego três milímetros do licor de cacau que veio da melhor amiga baiana)

Como ela não pode saber, lavo rapidamente o copo de licor na pia do lavabo. O cão escuta o barulho e late. Corro para pôr o copinho no lugar e vou acariciar o melhor dos anfitriões.

Deita, torce o pescoço se contorce todo. Pega três bolinhas com uma boca só. Não deixa eu pegar – é cabo de força ou é para jogar a bola?

Ela chega e brinca com ele, me aperta apertado. Me espreme?

Na cozinha, duas cuias. Um granito sem fim, armários sem fim, um fogão de seis bocas para ninguém passar fome.

Ele acorda e pega um copo de leite. Ela chia. Ele retruca, juntas as mãos de apreensão. Volto pela sala de jantar, olho a cristaleira, da última vez não lavei os copos direito. Dou uma espiada no quintal, passo pela sala de estar novamente.

Vejo o jardim de inverno, onde a Paz e o Amor não se bicam.

Encontro-o na biblioteca, lendo um livro, claro. O computador precisa ser trocado. Aperto-lhe as bochechas, faço festinhas, damos umas risadinhas. Olho para todos aqueles livros das estantes cheias – romances, um tanto de engenharia elétrica, outro tanto de bioquímica; muita religião e um pouco de poesia. O tapete enrolado esperando ser esticado ali.

Na sala de TV qualquer banda que eu nunca dei atenção, mas que ele adora. A Barça na estante do tempo que nem AIDS existia.

O quintal está florido. Lá no fundo, anões em miniatura e nem é uma casa francesa. Um caminho para a torneira escondida. O cão late. Nossa Senhora numa casinha para ser iluminada de noite.

Volto pra sala, atravesso o corredor. Um espelho, uma foto. No quarto ao lado, está ela deitada lendo o jornal. A cama desarrumada. O cobertor marrom– o mais quentinho do mundo.

O banheiro verde que nunca ganhou um box.

No quarto do meio, o Bidu e o vazio – não consigo ficar ali tanto tempo. No outro quarto um tanto de mofo, ele grita quando eu entro, é melhor sair correndo.

Volto para cozinha, o lugar mais ensolarado da casa. Uma comidinha deliciosa, um suco misturado. Uma sobremesa criativa generosa. Nós conversamos.

Damos risada, ela implica com meu cabelo. Eu chio, ela se ofende. A gente se abraça, se espreme. Eu levo um tanto de comidinhas para casa. O namorado já virou marido.

Despeço-me de todos, mas o mais amoroso é sempre o do cão. Atravesso a lavanderia – um grande cabideiro para roupas passadas. Um armário com sapatos. Faço festinha, ele se contorce, ao som do “tchau” já está a postos. Lavo a mão no banheiro ao lado. Volto pra sala de estar.

Pego a bolsa, o casaco. Saio pela porta da frente daquela casa que não é minha nem dos outros, de onde saí sem nunca saber dizer adeus.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Quadrilha

Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

Eram quatro cavaleiros, um fiel, um ensimesmado e um dividido.
Entre eles, aquele que recebia a alcunha de amigo.

Eram quatro errantes, um reto, um desviado e um escorregão.
Entre eles, aquele que antes preferia esperar pela união.

Eram quatro combatentes, um justo, um irado e um traidor.
Entre eles, aquele que, na guerra, lutava por amor.

Eram quatro incomodados, um digno, um exaltado e um fora da lei.
Entre eles, aquele a quem meu coração entreguei.