sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A casa amarela

Naquela casa, de unhas de gato que tapam os números de vez em quando, entro pela porta da frente – mas nunca entendi por que chamam a outra de porta dos fundos se dá tudo pra frente da rua.

Passo pelas plantas todas, um dos carros está na rampa, porque ela vai lavar a garagem. O outro está do lado de lá da rua, embaixo da árvore, que não existe mais por conta do prédio da frente que acabou de ser erguido.

Entro na sala de visitas, a sala mais bem decorada do mundo porque foi ela quem decorou. O quadro de toureiro da vizinha, que se mudou depois que ficou viúva. Ao lado, outro quadro de Nossa Senhora de Fátima, acima do velho aparelho de som que ele jogou café, não funciona mais.

No chão o tapete avermelhado, os vasos com as plantas falsas que incomodam o namorado. O barzinho de canto, cheio de bebidas que ninguém bebe.

(Escondida, pego três milímetros do licor de cacau que veio da melhor amiga baiana)

Como ela não pode saber, lavo rapidamente o copo de licor na pia do lavabo. O cão escuta o barulho e late. Corro para pôr o copinho no lugar e vou acariciar o melhor dos anfitriões.

Deita, torce o pescoço se contorce todo. Pega três bolinhas com uma boca só. Não deixa eu pegar – é cabo de força ou é para jogar a bola?

Ela chega e brinca com ele, me aperta apertado. Me espreme?

Na cozinha, duas cuias. Um granito sem fim, armários sem fim, um fogão de seis bocas para ninguém passar fome.

Ele acorda e pega um copo de leite. Ela chia. Ele retruca, juntas as mãos de apreensão. Volto pela sala de jantar, olho a cristaleira, da última vez não lavei os copos direito. Dou uma espiada no quintal, passo pela sala de estar novamente.

Vejo o jardim de inverno, onde a Paz e o Amor não se bicam.

Encontro-o na biblioteca, lendo um livro, claro. O computador precisa ser trocado. Aperto-lhe as bochechas, faço festinhas, damos umas risadinhas. Olho para todos aqueles livros das estantes cheias – romances, um tanto de engenharia elétrica, outro tanto de bioquímica; muita religião e um pouco de poesia. O tapete enrolado esperando ser esticado ali.

Na sala de TV qualquer banda que eu nunca dei atenção, mas que ele adora. A Barça na estante do tempo que nem AIDS existia.

O quintal está florido. Lá no fundo, anões em miniatura e nem é uma casa francesa. Um caminho para a torneira escondida. O cão late. Nossa Senhora numa casinha para ser iluminada de noite.

Volto pra sala, atravesso o corredor. Um espelho, uma foto. No quarto ao lado, está ela deitada lendo o jornal. A cama desarrumada. O cobertor marrom– o mais quentinho do mundo.

O banheiro verde que nunca ganhou um box.

No quarto do meio, o Bidu e o vazio – não consigo ficar ali tanto tempo. No outro quarto um tanto de mofo, ele grita quando eu entro, é melhor sair correndo.

Volto para cozinha, o lugar mais ensolarado da casa. Uma comidinha deliciosa, um suco misturado. Uma sobremesa criativa generosa. Nós conversamos.

Damos risada, ela implica com meu cabelo. Eu chio, ela se ofende. A gente se abraça, se espreme. Eu levo um tanto de comidinhas para casa. O namorado já virou marido.

Despeço-me de todos, mas o mais amoroso é sempre o do cão. Atravesso a lavanderia – um grande cabideiro para roupas passadas. Um armário com sapatos. Faço festinha, ele se contorce, ao som do “tchau” já está a postos. Lavo a mão no banheiro ao lado. Volto pra sala de estar.

Pego a bolsa, o casaco. Saio pela porta da frente daquela casa que não é minha nem dos outros, de onde saí sem nunca saber dizer adeus.