terça-feira, 20 de agosto de 2013

Ode às férteis rameiras!

Não é maldade. Coisas dos tempos.

Aquelas mulheres, cheias de boa vontade, tentando esconder o desconcerto, perguntavam à balzaquiana, há dois anos matrimoniada, de forma despudoradamente consagrada, obscenamente descente, ultrajadamente canônica:

– Mas você está bem? Foi planejado? Era mesmo o que vocês queriam?

Constrangida por gerar alegria, tal qual meretriz, eructou afirmativamente.

Partiu dali, extasiada, carregando a sua primeira vergonha no ventre.

Mas, antes que atirassem a última pedra, regurgitou, em baixo calão, a sentença digna de guilhotina:

– Um viva às licenciosas de prole em abundância!

E seguiu, prostitutamente, com seu pandulho venturoso.  

Maternidade – Picasso

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Quem eu quero para o novo papa


O menos provável. Aquele que não se dá muita importância, escondido num canto da Capela Sistina. Quero aquele de quem a imprensa nunca fala, nem nota. Que se esqueceu de si mesmo.

 Que esteja ocupado em seu trabalho, sem tempo para ser papabile.

Quero que trema ao ouvir seu nome e caia de joelhos quando lhe chamarem para o sim. Aquele não olhe para uma multidão, mas um par de olhos de cada vez. Que ame a sua nação, mas que tome todas as culturas como própria. Que não olhe para minorias ou maiorias, mas para aquela mulher, aquele judeu, aquele homossexual, aquela criança.

Que tenha os olhos bondosos, as mãos firmes e o peito aberto. Que saiba ouvir mais do que falar, mas que conheça muitas línguas. Que saiba dos seus erros, mas, mais ainda, que eles são pequenos diante da misericórdia divina.

Que seja alegre, forte, corajoso. Estude sempre e ame a vida. Que seja Pedro, João Paulo, Bento. Sobretudo, seja Cristo. 


sábado, 16 de fevereiro de 2013

O corpo é velho, mas a mente é jovem


Em 2010, tive um minicurso de teologia, que ocorria aos sábados de manhã. Lembro da minha professora dizer que os estudiosos da Igreja viam a mente do nosso papa Bento XVI como uma das mais brilhantes da história da Igreja, e que só saberíamos a importância de sua força no mundo católico dali há muitos anos.

Não era a primeira vez que eu ouvia falar que Joseph Ratzinger era um intelectual admirável mesmo frente ao saudoso papa João Paulo II, cujo valoroso conhecimento era claramente reconhecido. Mas aquela informação ficou na minha cabeça. Queria estar viva para entender do que se tratava toda aquela sabedoria do sumo pontífice.

Dizer que o papado de João Paulo II foi muito inovador não é difícil de entender.  Mais que dobrou o número de canonizações, visitou 129 países em 27 anos, criou a Jornada Mundial da Juventude, estreitou os laços ecumênicos, dentre outros feitos.

Mas o que dizer, leiga que sou, de Bento XVI, que tem um perfil doce, porém mais introspectivo e reservado? É certo que ele seguiu os passos de seu antecessor, mas fiquei curiosa para saber o que mais vinha por ali.

Nesta semana, ouvimos dizer que Bento XVI renunciou o cargo*. Certamente, essa atitude é resultado dessa mente impactante que ele tem.  E não digo com isso que foi uma mera atitude estratégica, política. Foi uma decisão inteligente, mas humilde. Aliás, entendo, ainda mais nesse caso, que inteligência e humildade são faces da mesma moeda.  O papa sabia das reais e urgentes necessidades da cristandade hoje e percebeu que a linha de frente não lhe competia mais.

Ontem assisti ao Jornal da Cultura, tendo na bancada o cientista político Carlos Novaes e o filósofo Mario Sergio Cortella, e no debate se dizia que a renúncia do pontífice era bem suspeita, pois o argumento de se estar velho e cansado não convencia, visto que o cargo era vitalício e chegar à velhice nele era o normalmente esperado. Aí é que está. Bento XVI provou, com seu próprio exemplo, que não necessariamente se deve permanecer no pontificado até a morte.

Em 2010, o biógrafo do papa, Peter Seewald, questionou se o líder supremo da Igreja poderia se demitir do cargo. A resposta de Bento XVI foi que sim, “quando um papa chega à clara consciência de não ser mais capaz física, mental e espiritualmente para realizar o encargo que lhe foi confiado, então ele tem o direito e, em algumas circunstâncias, até o dever de renunciar".

A dinâmica do mundo atual exige um esforço físico maior do papa, sem dúvida. Necessita de muitas viagens, uso da tecnologia, reuniões constantes. Bento XVI percebeu isso, e acredito que seus sucessores irão tomá-lo exemplo, não necessariamente renunciando o cargo quando muito mais velhos, mas cogitando a possibilidade em prol da Igreja.

Aos amigos católicos, digo que não há motivos para duvidar do papa, mas sim para rezarmos muito por ele e pelo próximo que há por vir. É joelho no chão e a alma leve.

Aos amigos cristãos não católicos, também contamos com as orações, visto que o papa é a figura pública que traz os ensinamentos de Cristo, Nosso Senhor, com maior visibilidade no mundo. Aos crentes em Deus e não cristãos, as orações se fazem necessárias por ter um bom interlocutor dos assuntos divinos na terra. Aos ateus e agnósticos de boa vontade (que, muitas vezes, sem saber, são mais cristãos que muitos religiosos), é bom saber que trazem bons sentimentos consigo para um novo líder, que pode falar de amor e de verdade em um mundo tão materialista em que vivemos hoje.

Por fim, termino com a máxima compartilhada pelo teólogo Scott Hahn hoje no Facebook: “[Also for the popes] No matter who is president, Jesus is King”. “[Também vale para os papas] Não importa quem é presidente, Jesus é Rei”.

*Errata: o papa emérito Bento XVI não renunciou ao cargo, mas ao ministério petrino, ou seja, ao exercício do poder de papa, sem deixar de ser o sucessor de Pedro, enquanto vivo. Conferir em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/02/leia-integra-do-discurso-de-renuncia-do-papa-bento-xvi.html

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Nunca em branco



Meu livro tem gostas de sal e de sangue. Feixes de luz, rabiscos à toa e grifos do batente. Meu livro leva as marcas das minhas unhas, a força da minha memória e o tempo contado no relógio. Meu livro tem todo sentimento numa gota do mar. 

Meu livro é torto e amarelado, dobrado, mas cuidado com marca-texto. Meu livro sou eu, você e toda gente. Meu livro não tem Control + Z.

Meu livro é ressaca. Está esgotado. Meu livro é prazer. É todo sabor, toda eu, sou toda sua. Meu livro me tem em suas linhas.