segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O espelho

Sentei mais uma vez diante do espelho. Fazia tempo que não tinha a coragem de fitar-me a face.
Havia saído algumas noites acreditando que era diferente. Os olhos brilhando, o vento gelado correndo. Tinha me esquecido de quem eu era. Tinha esquecido que tinha pena de mim mesma.
[De que não sou nada, nunca serei nada, não posso ser nada.]
Voltei ao espelho, o olho cortado, o outro cortante. A lágrimas espessas, entaladas, de vergonha de si mesma. Tentei sentir pena, e foi penoso. Tentei sentir compaixão, mas tive nojo. 
Consegui chorar finalmente. Lembrei de quem era - menina sonhadora que esqueceu de viver. Tentei não desistir, eu precisava lembrar. 
Toquei a boca, ela era bela, mas estava carcomida. 
Os cabelos presos, mal presos, o queixo retraído. A luz do sol partindo, e a noite abusiva. Abuso das palavras, quero possuí-las com toda força que sinto. Olhei de novo no espelho e vi que sou fraca. A testa franzida e as lágrimas ralas.
Fitei a pele suja e esburacada. Lembrei do sulco na testa. Os dentes amarelados...um sorriso tão bonito, não merece uma alma fracassada. Quebrei o espelho, o caco grudou no meu olho. Tenho sangue na cara e não posso mais olhar. E o espelho...o espelho...o espelho...o espelho!!!!!

...

Então ela sentou em frente ao espelho e disse: eu prometo, vai passar. 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Coração como cera

"Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que estás tão longe de salvar-me, tão longe dos meus gritos de angústia?
Meu Deus! Eu clamo de dia, mas não respondes; de noite, e não recebo alívio!
Tu, porém, és o Santo, és rei, és o louvor de Israel.
Em ti os nossos antepassados puseram a sua confiança; confiaram, e os livraste.
Clamaram a ti, e foram libertos; em ti confiaram, e não se decepcionaram.
Mas eu sou verme, e não homem, motivo de zombaria e objeto de desprezo do povo.
Caçoam de mim todos os que me vêem; balançando a cabeça, lançam insultos contra mim, dizendo:
"Recorra ao Senhor! Que o Senhor o liberte! Que ele o livre, já que lhe quer bem! "
Contudo, tu mesmo me tiraste do ventre; deste-me segurança junto ao seio de minha mãe.
Desde que nasci fui entregue a ti; desde o ventre materno és o meu Deus.
Não fiques distante de mim, pois a angústia está perto e não há ninguém que me socorra.
Muitos touros me cercam, sim, rodeiam-me os poderosos de Basã.
Como leão voraz rugindo escancaram a boca contra mim.
Como água me derramei, e todos os meus ossos estão desconjuntados. Meu coração se tornou como cera; derreteu-se no meu íntimo.
Meu vigor secou-se como um caco de barro, e a minha língua gruda no céu da boca; deixaste-me no pó, à beira da morte."