segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O espelho

Sentei mais uma vez diante do espelho. Fazia tempo que não tinha a coragem de fitar-me a face.
Havia saído algumas noites acreditando que era diferente. Os olhos brilhando, o vento gelado correndo. Tinha me esquecido de quem eu era. Tinha esquecido que tinha pena de mim mesma.
[De que não sou nada, nunca serei nada, não posso ser nada.]
Voltei ao espelho, o olho cortado, o outro cortante. A lágrimas espessas, entaladas, de vergonha de si mesma. Tentei sentir pena, e foi penoso. Tentei sentir compaixão, mas tive nojo. 
Consegui chorar finalmente. Lembrei de quem era - menina sonhadora que esqueceu de viver. Tentei não desistir, eu precisava lembrar. 
Toquei a boca, ela era bela, mas estava carcomida. 
Os cabelos presos, mal presos, o queixo retraído. A luz do sol partindo, e a noite abusiva. Abuso das palavras, quero possuí-las com toda força que sinto. Olhei de novo no espelho e vi que sou fraca. A testa franzida e as lágrimas ralas.
Fitei a pele suja e esburacada. Lembrei do sulco na testa. Os dentes amarelados...um sorriso tão bonito, não merece uma alma fracassada. Quebrei o espelho, o caco grudou no meu olho. Tenho sangue na cara e não posso mais olhar. E o espelho...o espelho...o espelho...o espelho!!!!!

...

Então ela sentou em frente ao espelho e disse: eu prometo, vai passar. 

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